Monday, March 30, 2009

Com os primeiros raios solares se levantou, fechou a cortina, preparou um café, abocanhou algumas bolachas e sentou-se na frente do Laptop. Passou alguns minutos observando a companheira nua, iluminada por indiscretos raios que ousavam atravessar as grossas cortinas. Se lembrou dos movimentos noturnos, da dança insana em que os cômodos do pequeno apartamento serviram de palco. A talentosa amiga de longas pernas oscilava entre o amor romântico de uma noite de núpcias e o iminente ímpeto de estrangular o companheiro entre as coxas quentes. “E como eram quentes”, pensou enquanto degustava o café, um irresistível caminho de brasas que guardava no final uma rosa molhada de chuva, pronta a se abrir acolhedora ao supliciado. Começou. Com uma mão no pau e outra no teclado, vestia de palavras suas impressões matinais, pontuava as respirações mais intensas com exclamações, descrevia com excesso de vírgulas o processo do desnudamento, o percurso das bocas pelos labirintos do corpo caminhava pelo estranho e infinito mundo das onomatopéias, por vezes sentia que a grande exclamação estava perto, então usava os três pontos...e recomeçavam as mordidas, as vírgulas, as carícias, as interjeições, os imperativos, o rodamoinho dos seios, o caminho das brasas, a rosa. E no tecido do texto a cena se compunha, não exatamente como tinha ocorrido, mas com novas idéias que surgiam a cada vez que olhava a companheira deitada, nas diversas posições em que esteve durante esse tempo, nos diferentes modos que apreendeu os contornos daquele corpo amigo. Parou por um tempo de escrever, pensava em como terminar o texto, fixou-se distraidamente na panturrilha que escapava do lençol, que se expunha aos raios que a essa hora já invadiam com toda força as frestas da cortina, a moça abriu um dos olhos com preguiça, viu o amante com uma mão no pau e outra na “pena”, amável, sorriu da bizarrice, estendeu a perna descoberta até o botão que ligava o som , ficou feliz com a canção que surgiu “Let's get lost, lost in each other's arms...” e fechou os olhos enquanto Chet Baker inundava o quarto com sua voz e seu trompete.

Saturday, January 31, 2009

Indigesto

Comer um pastel gigante, com Cheddar, Bacon e Purê de Batata às 0h de sábado para domingo não é uma das mais inteligentes escolhas de um homem de 25 anos. Os hábitos alimentares de uma pessoa realmente testemunham sobre (contra) ela mesma. E assumo, dessa vez não era uma questão de “contexto”. Neste momento sofro das náuseas da gordura em meu estômago , 2:11h da madrugada, e elas me fazem pensar nas Náuseas da Existência, no rumo que minha vida tomou até aqui, rumos dos quais sou co-participante, sinceramente gostaria de estar dormindo tranqüilo mas tudo mexe aqui dentro, em todos os sentidos, um Milk-Shake de órgãos e comidas engorduradas com uma boa dose de sofrimento humano.
Daqui a pouco algumas coisas vão sair e outras não...

Thursday, January 22, 2009

Vai começar o show...

"Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para Didi paraPagão para Pelé e Canhoteiro"

Uma parábola descrita no ar por uma bola, cuja circunferência representa a figura perfeita, saiu dos pés de um camisa 10 talentoso, pousou como um pássaro manso no peito do matador, mas este a trata tão bem que o adjetivo talvez não caiba, o tempo da matada não foi mais do que 1 segundo mas a fotografia da memória eternizou aquele instante e pra mim até hoje a bola está ali, tranquila, esperando os próximos segundos quando descansará, feito uma dondoca, na rede confortável do gol adversário. O tempo decorrido entre o lançamento, a matada e o gol não é linear, é uma sobreposição de camadas de tinta sobre a tela verde do gramado. Deixo claro que o verde está por baixo, pisado, o verde no futebol só serve de tapete. Por cima resplandece o preto no branco, os onze mosqueteiros fiéis e seu comandante, na arquibancada a torcida termina o quadro num êxtase de felicidade! Numa explosão catártica que só o futebol proporciona,porque “o Corinthians não é um time que tem uma torcida, é uma torcida que tem um time”, e como diria outro ilustre amante do futebol de antigamente, “essa vitória já estava escrita a 10 mil anos atrás” os deuses não são tricolores como ele imaginava, são amantes das duas cores mais importantes do espectro, aquelas que deram origem a todas as outras, o Preto e o Branco.
por isso,
Viva o Timão em 2009 e para sempre e sempre!

Wednesday, January 21, 2009

Gênese

Me equilibro sobre um fino barbante, tão fino que me parece um fio de teia de aranha, arrisco passos alegres mas me deparo com a possibilidade da queda, está tão quente aqui, estafante, e atrás de mim vem uma aranha faminta, sim! A dona do fio que me sustém, sua armadilha , no entanto, não me pára, como é seu querer canibal, devo prosseguir para me salvar, pois cada vez mais próximo e rápido ela está, por vezes se cansa e me deixa caminhar sozinho com minhas idéias. Meu pensamento pousa em alguns fios atravessados da teia, ali parece que o tempo parou, vejo uma linda moça bebendo um refresco deitada no fio, como numa praia. Paro e pergunto:
_Você não tem medo da Dona Aranha?
_ Não, me salvei dela nessa falha de sua construção, ela segue o fio principal e eu fico aqui curtindo o ar da floresta e bebendo suco direto das frutas da árvore.
_ Ficarei com você se me permitir, teremos filhos fortes, crescerão e mataremos a Aranha juntos. O que acha?
_Tudo bem, desde que colha frutas para mim todos os dias e não tente me dar ordens...
_Concordo, desde que não sejam maçãs, não é um bom começo, já li isso em algum lugar...

Saturday, January 17, 2009

Pout-porri de boleros

"Sentindo um frio em minh'alma te convidei pra dançar, minha cabeça rodava, são dois pra lá e dois pra cá..."

Sem pensar duas vezes bebeu de um só gole toda a cachaça barata do copo americano, limpou a boca com a manga do vestido, levantou e começou a dançar sozinha, a pista estava escura com flashes de luz que vez por outra lhe iluminavam a maquiagem borrada. Sentiu uma mão no seu ombro, era um convite, sem olhar o rosto do parceiro entregou seu corpo à condução embriagada e solitária daquele homem sem rosto e com cheiro de charuto barato, doía tanto aquele bolero que eles dançaram muito próximos , e ela aproveitou aquele corpo para chorar sem medo por um tempo, ele sentiu que sua camisa se molhava com as lágrimas da desconhecida, a apertou junto a si e eles rodaram lentamente na pista, suas mãos se encontravam em carícias amorosas, as costas, os ombros, os cabelos eram todos pontos onde ambos depositavam toda a carga de amor que tinham dentro si, essa dança de lágrimas e luxúria durou aproximadamente dez minutos, o tempo que durou o pout-pourri de velhos boleros de muito, muito tempo atrás, a música acabou, eles se olharam e não tiveram o que dizer, a banda começou a tocar uma salsa que não tinha mais nada a ver com eles, o amor acabou.