O Anjo Pornográfico
"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico."
( Nelson Rodrigues )
Falar não era seu maior dom, ele nascerá para observar, observar o lindo pôr-do-sol na fazenda, o modo como viviam os animais, o movimento das nuvens do céu antes de uma chuva... Ninguém dava por ele, era silencioso e esperto, já aos 8 anos de idade conhecia mais sobre sexo do que qualquer menino de 12 e 13 anos. Tudo começou numa noite chuvosa, ele tinha 6 anos, o barulho dos trovões era ensurdecedor mas ele ouvia passos no corredor, sentiu medo, mas sentiu algo mais forte junto com o medo, a curiosidade, curiosidade essa que o perseguiu até o fim da vida, levantou-se, não vestiu o chinelo e foi até a porta, abriu-a um pouco para observar mas estava muito escuro, foi quando um relâmpago assustador iluminou o extenso corredor da velha casa de fazenda e ele conseguiu distinguir o vulto, era sua prima Carmem, naquela época o menino só sabia que a Prima era muito gentil, todos os primos mais velhos gostavam dela e a abraçavam bastante e ela sempre sorria para eles... ela não o percebera, ele ficou esperando que ela voltasse ao seu quarto, pensou que ela só tivesse ido beber um copo d’água, foi quando ela mexeu na maçaneta do quarto em que dormiam Mário e Ricardo, os primos recém chegados da Capital que estavam passando férias na fazenda, após sua entrada o menino saiu para o corredor e na ponta dos pés foi se aproximando do quarto, ele ouvia ruídos estranhos, pareciam beijos mas eram seguidos de um murmúrio que parecia dor, ouvia gemidos, pensou que a estivessem torturando, o som que vinha do quarto, e que aparentemente só ele escutava, fazia sua imaginação voar pelos piores pesadelos, chegou à porta, estava fechada, encostou o ouvido e pode ouvir bem os gemidos, ele sentia um frio na barriga inexplicável, sentia culpa e tinha medo de que o apanhassem, foi quando o peso do seu corpo deslocou a porta um centímetro, estremeceu, mas não foi notado, à sua frente havia um espelho e ele conseguiu assistir a cena toda, Mário, Ricardo e Carmem, completamente nus na cama fazendo coisas que ele só tinha visto antes com animais, não entendeu bem só sabia que dentro de si sentia um prazer imenso misturado com medo de ser apanhado, com medo de que apanhassem os três também, mas ficou até o fim, até o último gemido. Quando tudo terminou Carmem se levantou sorridente e ficou se olhando nua no espelho e ele ficou observando seu corpo, suas formas arredondadas, estava entorpecido, até que seus olhares se cruzaram, o menino empalideceu, Carmem o olhou através do espelho bem nos olhos, lhe sorriu amigavelmente e fez um gesto de silêncio com a mão antes de voltar para cama. O menino voltou para o quarto ainda pálido e tentou dormir, mas não conseguiu, lembrava das pernas, dos seios, da boca e principalmente do olhar, do gesto com as mãos e do sorriso de Carmem...
Esse foi o início das noites insones daquele menino simples que observava tudo ao seu redor, que falava pouco mas sabia muito, depois desse fato ele viveu várias outras aventuras como essa e acreditem se quiserem ele foi fiel até a morte à todos os adúlteros que contemplou e que lhe despertavam aqueles sentimentos estranhos dos quais ele se tornou eternamente dependente.
Em homenagem a Nelson Rodrigues

3 Comments:
Show Luquinhas!!! Gostei!!
Tony Wendell
Ha ha ha !! Sensacional !!
Boa Zé!!! Muito boa!!! Um dos meus preferidos e autor da pérola...O amor bem-sucedido não interessa a ninguém. O pior é que eu concordo hahahaahgdgsagfgdshg bjus Lucas
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