Sunday, March 27, 2005

Ela só queria sexo, só queria transar e acordar sozinha num quarto de hotel barato numa beira da estrada qualquer, e sem querer ele foi se acostumando com seu amor ligeiro e febril, antes que ela acordasse ele já estava vestido, não se despedia, deixava uma grana pra ela tomar um café e partia, nas poucas vezes que conversaram ela disse que a culpa da desgraça da sua vida era dele, ele tinha furado as regras, na primeira vez que saíram acabou esquecendo um cartão da sua loja de animais junto com o dinheiro do café, ela olhou o número e nunca mais esqueceu!, rasgou o papel, comeu o papel de raiva, tentou esquecer, mas não conseguiu, um dia, depois de chorar horas a fio por causa de lembranças ruins da sua infância, tudo o que ela mais queria era morrer sozinha, sua vida se acabaria alí e ela seria uma mártir, representante de todas as mulheres mal-amadas e sem esperanças do mundo, morreria como um cão na sarjeta, ela já tinha se acostumado com essa idéia, morrer sozinha e fodida com alguma DST qualquer, mas em meio a tudo aquilo ela lembrava de um número, o número dele, ficou parada em frente ao orelhão, na chuva, duas horas chorando sem parar, mas depois ligou, ele atendeu com uma voz de sono e curiosidade, eles se encontraram naquela mesma noite num hotel qualquer e começaram aquela estranha relação, libido e repulsa, compromisso com o descompromisso, o desejo crescia, porém a vontade de não se envolver era forte, sempre juravam que jamais se encontrariam novamente mas ela nunca esqueceu aquele número e ele sempre, todas as noites, aguardava aquela ligação, aquela voz vadia e aflita que o convida para o prazer momentâneo, que o convida para a solidão do dia seguinte, para a solidão da luz do dia, assim vivem os dois, presos um ao outro por uma força que não tem nome, “que brota à flor da pele” e “que não é direito ninguém recusar”,como cantou o poeta, e eles não recusaram, quando ela já estava carcomida pelos efeitos do vírus eles se encontraram, como sempre num hotel barato e pulguento, ele levou uma forte dose de um calmante para grandes animais, misturou com cocaína e colocou tudo dentro de uma seringa, antes de aplicar ele olhou para ela e disse que dessa vez ele não iria embora de manhã, uma lágrima escorreu pelos olhos dela e eles finalmente dormiram juntos até o Sol nascer.

O amor deixa marcas...

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