Um amante do esporte
A preparação se inicia, não posso esquecer nenhum elemento, afinal no esporte são os detalhes que fazem o campeão. Passo pelo banheiro, dou aquela mijadinha, lavo as mãos, pela cozinha reúno um belo time de bolinhos de chuva com muito açúcar, uma bela caneca de leite com chocolate e sigo para a maratona. No quarto ponho as guloseimas ao lado da cama, entro debaixo da coberta, ajeito dois travesseiros grandes embaixo da minha cabeça, posição super recomendável pelos fisioterapeutas, deixo ao meu alcance os bolinhos, o chocolate e, é claro, o controle remoto. A maratona pode durar o dia inteiro e todo esforço é pouco pra acompanhar todas as modalidades que a televisão transmite nos jogos panamericanos. Pra acompanhar todos os lances da emocionante corrida por medalhas minhas leituras, que separei para as férias, estão bem atrasadas, Garcia Márquez que me perdoe mas tem Ginástica Artística em três canais diferentes, depois tem vôlei feminino, depois tem handeibol, depois tiro ao alvo e depois seleção sub17 (vamo Lulinha!). Isso sem contar que a Copa América já levou boa parte das minhas noites de Julho. Quero deixar bem claro que sou um homem como todos os outros e, assim sendo, não pude deixar de desejar a belíssima coleção de chuteiras da Adidas, todas as modalidades, campo, salão e society. Desejei adquirir vários produtos esportivos durante esse mês de Julho, um bom tênis para caminhada e corrida, acessórios para minha surrada raquete de Tênis de mesa, e muitas outras coisas, a Adidas foi a empresa que mais se adequou ao meu perfil de atleta. O esporte sempre esteve relacionado a grandes instituições, e sempre teve um importante papel político numa sociedade, na Grécia o esporte fazia parte do ideal de formação integral do homem, tinha um caráter religioso e era usado também como preparação militar dos jovens, os jogos olímpicos gregos também serviam de intercambio cultural entre as diversas polis gregas. Em Roma surgiram os Jogos Públicos, que apresentavam corridas de carros com cavalo, lutas de gladiadores, corrida de cristãos com leões, etc, esses jogos mobilizavam a massa e faziam com que essa se esquecesse dos direitos que o império lhes sonegava, esse fato ficou conhecido na história como a “Política de pão e circo” com funções claramente alienantes. O esporte moderno, incentivado nas escolas e pregado como uma forma de livrar os jovens do mundo da criminalidade e das drogas traz em si elementos muito semelhantes aos Jogos Públicos Romanos, as grandes marcas se utilizam do talento de grandes atletas para enriquecer, o futebol movimenta milhões de dólares no mundo todo, e movimenta platéias incríveis, tanto nos estádios como também pelo grande veículo de comunicação que é a tv. Interessante notar que concomitantemente à popularização do esporte há um crescimento sem igual do número de obesos no mundo e cada vez menos exercícios físicos são realizados pelas pessoas, devido em grande parte às comodidades da vida moderna. Outro fator interessante é a ditadura estética a que estamos submetidos quando assistimos loucamente um evento esportivo como os jogos panamericanos, são corpos inatingíveis vivendo do modo como um trabalhador urbano vive. Do ponto de vista psicológico pode-se explicar o bem estar do expectador pelo potencial catártico que uma partida bem disputada exerce sobre uma sociedade frustrada na maioria dos seus desejos, na realização do time de futebol, na vitória de um atleta nacional estão concentrados muitos de nossos desejos frustrados e impossíveis de serem realizados. Com esses fatos expostos pode-se refletir sobre como o esporte moderno está distante dos ideais gregos que visava formar o homem de forma integral, corpo e alma, e de qualquer ideal nobre, estando muito mais próximo à manutenção da ideologia dominante. É mais um exemplo de como a cultura de massa pode estragar uma atividade humana que poderia ser benéfica e dignificante do espírito humano. Enquanto eu engordo comendo bolinhos de chuva com açúcar e tomando chocolate quente, a indústria esportiva lucra horrores com meus desejos de consumo e a indústria farmacêutica lucrará com meus remédios para hipertensão, e assim eu fico um gordo simpático que usa agasalho Nike nas caminhadas matinais.

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