Paulo Capivara amava doces, poderia ser Paulo Formiga ou Paulo Urso, mas por parte de mãe era Capivara e roía o pão que o diabo amassou desde criança. Era um menino tímido, ranhento, pacato e introvertido, nas brincadeiras escolares era bom com o estilingue, sua pontaria despertava respeito nos colegas. Como já disse ele roía o pão que o diabo amassou, sofria estigmas, desde muito novo foi escolhido para Cristo entre os meninos, e esses o perseguiam ferozmente pelas ruas, nos banheiros, no recreio e no caminho para casa, era comum Paulo Capivara chegar faminto em casa, pois haviam roubado seu lanche, no caminho de casa para a escola um pequeno rio barrento acompanhava a estrada, às vezes voltava para casa molhado, por ter sido forçado a vir pelo rio, lugar onde as capivaras vivem, e enquanto vinha nadando tinha que se desviar dos mijos e das pedradas dos moleques. Em resumo Paulo Capivara teve uma infância fudida, pra roedor nenhum botar defeito. A adolescência foi osso duro de roer também, poucas namoradas, muita timidez, e pra piorar um óculos fundo de garrafa bem aos 15 anos de idade, nessa época lendas rurais surgiram em torno de sua pessoa, lendas essas que estragaram muitos de seus possíveis romances, disseram que ele aprisionava uma pobre capivara no porão de sua casa e que ela lhe servia com prazeres sexuais bizarros, era uma capivara treinada nos deleites carnais, e ele se alimentava do leite desse animal, essa parte do leite surgiu quando perceberam que ele nunca mais levou lanche para a escola, o único relato alimentício que um colega da turma percebeu foi uma compulsão por dadinhos, esse doce de amendoim que dizem ser afrodisíaco. Por esses tempos de final de colégio Paulo Capivara já era um sujeito no mínimo excêntrico, muitas lendas sobre suas relações sexuais com animais aprisionados, sobre o poder mágico do dadinho... vivia meio encurvado, com o olhar perdido atrás dos seus muitos graus de miopia... Quando descobriram que ele queria prestar Veterinária tiveram certeza de todas as especulações a seu respeito. Coisa engraçada se passou por esse período, Paulo capivara experimentou um certo prestígio por sua obscuridade, as mulheres começaram a se aproximar dele, queriam provar do seu instinto animal, ele se apaixonou por Luiza Boaventura, moça tímida, inteligente e com estranhos hábitos alimentares, adorava mastigar Tatuzinhos bola quando ninguém estava olhando, Paulo nunca soube desse fetiche de sua companheira, mesmo depois de muitos anos convivendo com ela sob o mesmo teto, uma vez achou muito estranho quando chegou de repente na cozinha e viu Luiza com uma xícara cheia de pequenos Tatus, não deu tanta importância, julgou ser uma odiosa coincidência e foi para o porão, Luiza entendeu que ele havia descoberto tudo e respeitado seu ritual, depois desse dia o amou mais do que nunca por causa desse mal entendido, o qual nunca foi discutido entre eles . Foram felizes durante a universidade. Se mudaram daquela cidadezinha cheia de traumas e foram para a capital, na clínica veterinária Paulo Capivara voltou a ser perseguido, boatos corriam sobre possíveis atos de sexo bizarro com os animais da clínica, ele passou a tomar remédios para dormir à noite, remédios para ficar acordado durante o dia, remédio para se concentrar nas leituras e depois , remédios para relaxar os olhos. Paulo comprou uma arma. Aumentou a dose de dadinhos por dia e começou a ter problemas intestinais por causa disso. A tragédia. Em uma certa manhã de sol, antes de vacinar dois São Bernardos e um gato angorá, passou pela doceira e comprou 500g de dadinho para o período da manhã, ao sair da loja ouviu duas vozes que lhe pareciam familiares “ahhhh roedor passa pra cá esse saco de dadinhos!” , em um segundo seus olhos ferveram, seu sangue ferveu e seu movimento de sacar o revolver foi cinematográfico! cinco tiros em cada elemento ! dois deles à queima roupa, bem entre os olhos! Atônito não conseguiu fazer mais nada, se sentou, abriu o saco de dadinhos e começou a comer calmamente, de repente sentiu paz, paz que raramente sentiu durante toda a sua vida, ficou sentado e comendo até a polícia e os jornalistas chegarem...
No outro dia, nas capas de todos os jornais que pretendem livrar o mundo de assassinos sanguinários estava sua foto com os dizeres em letras garrafais:
“HOMEM INSANDECIDO MATA POR DADINHO”.
2 Comments:
É sempre assim, pode ver. Os mais zoados, que se mijam qdo crianças são os futuros assassinos! Genial.
Fantastique!
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